sexta-feira, 23 de abril de 2010

TRANFORMACOES, DAS - Nietzsche

Assim falou Zaratustra - “Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.
Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está bradando por coisas pesadas, e das mais pesadas.
Há o quer que seja pesado? — pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se como camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis — pergunta o espírito sólido — a fim de eu o deitar sobre mim, para que a minha forca se recreie? Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez? Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela celebra a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta? Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e padecer fome na alma por causa da verdade? Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos? Ou será submerjirmo-nos em água suja quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos? Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?
O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto. No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto. Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão.
Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor? “Tu deves”, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: “Eu quero”. O “tu deves” está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: “Tu deves!” Valores milenários brilham nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim: “Em mim brilha o valor de todas as coisas”. “Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o “eu quero!” Assim falou o dragão. Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não bastará a besta de carga que abdica e venera? Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão. Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e coisa própria de um animal rapace. Como o mais santo, amou em seu tempo o “tu deves” e agora tem que ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito.
Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude em criança? A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação. Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo.
Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se transformava em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança”.
Assim falava Zaratustra. E nesse tempo residia na cidade que se chama “Vaca Malhada”.
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FONTE:(NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

DONO DE SI

Ninguém é dono de sua felicidade, por isso: não entregue sua alegria, sua paz e sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém!
Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, das vontades ou dos sonhos de quem quer que seja.
A razão da sua vida é você mesmo.
A sua paz interior é a sua meta de vida.
Quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda está faltando algo, mesmo tendo tudo, remeta seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe em você.
Pare de colocar sua felicidade cada dia mais distante de você. Não coloque objetivos longe demais de suas mãos, abrace os que estão ao seu alcance hoje.
Se anda desesperado por problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque em seu interior a resposta para acalmar-se.
Você é reflexo do que pensa diariamente.
Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar. Então abra um
sorriso para aprovar o mundo que quer oferecer a você o melhor.
Com um sorriso no rosto as pessoas terão as melhores impressões de você, e você estará afirmando para você mesmo, que está "pronto“ para ser feliz.
Trabalhe, trabalhe muito a seu favor. Pare de esperar a felicidade sem esforços. Pare de exigir das pessoas aquilo que nem você conquistou ainda.
Critique menos, trabalhe mais. E, não se esqueça nunca de agradecer.
Agradeça tudo que está em sua vida neste momento, inclusive a dor. Nossa compreensão do universo ainda é muito pequena para julgar o que quer que seja na nossa vida.
A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.
Se você anda repetindo muito: “eu preciso tanto de você” ou, “você é a razão da minha vida” - cuide-se.
É lícito afirmar que são prósperos os povos cuja legislação se deve aos filósofos.
A inteligência é a insolência educada.
Nosso caráter é o resultado de nossa conduta.
Egoísmo não é amor, mas sim, uma desvairada paixão por nós próprios.
O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos.
Ser feliz é ser auto-suficiente...
Seja senhor de sua vontade e escravo da sua consciência.

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FONTE (Aristóteles. “Revolução da Alma”) (Paulo Roberto Gaefke)

PROCURA-SE UM AMANTE

Lembre-se de que filo (amante) + sofia (sabedoria)



Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um.
Há também as que não têm, as que tinham e perderam.
[...]
Mas eu explico: AMANTE é “aquilo que nos apaixona”.
É o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso AMANTE é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta.
É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.
Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer do passatempo predileto...
Enfim, é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir levando".
E o que é "ir levando"?
Ir levando é ter medo de viver.
é afastar-se do que é gratificante.
É observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra; é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva.
Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contente com "ir levando"; procure um amante, seja também um amante e um protagonista... da SUA VIDA...
[...]
"PARA SE ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA."

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FONTE (BUCAY, J. Hay que buscarse un Amante)

domingo, 18 de abril de 2010

PERIODOS DA HISTORIA DA FILOSOFIA

A História da Filosofia, como toda divisão cronológica, é uma opção arbitrária de quem estabelece os pontos de ruptura para justificar as separações entre um período e outro. É claro que esta "arbitrariedade" está sustentada em algum princípio que permite aproximações entre temas, características e proposições dos autores. Neste caso, as periodizações da História da Filosofia devem ser buscadas nos critérios de quem as fez, mais do que nas relações dos próprios filósofos, que ao escreverem e muitas vezes dialogando com textos de antepassados não estavam preocupados em pertencer a um período específico.
As caracterizações de um determinado período são úteis para uma sistematização didática, mas como toda caracterização, ao mesmo tempo em que dá identidade e especificidade ao período que está sendo caracterizado, também serve para simplificar e reduzir um determinado pensamento ao período em que ele surge. Falar de características do pensamento filosófico de uma época é uma forma de encobrimento das diversidades que existem, mas ao mesmo tempo, a procura por estas características nos auxiliam na identificação da abordagem filosófica.
Dialogando entre uma caracterização geral e as particularidades de cada filósofo, a periodização que fazemos a seguir parte de algumas das principais obras de História da Filosofia e se aproxima das divisões clássicas da própria História: antiga, medieval, moderna e contemporânea. São breves exposições e referências a alguns dos nomes que serão tratados nos volumes seguintes deste trabalho.

FILOSOFIA ANTIGA
A Filosofia Antiga refere-se a um grupo diversificado e que se localiza desde o século VI a.c. na Jônia até os primeiros tempos da era cristã. Pela dimensão temporal podemos localizar temáticas díspares que são sistematizadas neste mesmo grupo. Entre estes grupos estão:
- os pré-socráticos ou físicos: os filósofos, desde Tales de Mileto, que se localizam antes de Sócrates e se interrogavam sobre a physis (natureza), daí o nome físicos. A preocupação deles sobre o princípio (a arché) da natureza, da ordem do mundo fez com que estabelecessem as primeiras elaborações à procura de um princípio lógico que explicasse a própria natureza.
- A Filosofia Socrática. Sócrates: é a figura central da Filosofia grega. Embora nunca tenha escrito nada foi a partir dele que as questões humanas superaram as preocupações sobre o princípio ordenador da natureza. Sócrates é uma figura emblemática por ter legado à Filosofia a figura do homem questionador, que procura conhecer, interrogando as pessoas que julgava sábias. Ele dialogava e interrogava as pessoas à exaustão, através da ironia e da maiêutica, as partes constitutivas do seu método dialético: inquiria para que as pessoas pudessem "dar a luz às idéias". Incorporou o lema de um oráculo ("Conhece-te a ti mesmo") como parte de sua tarefa e foi condenado à morte.
A Filosofia sistemática. Platão e Aristóteles são os dois principais nomes deste período: Platão foi discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles. Ele foi o primeiro a sistematizar uma obra filosófica em que expressa uma determinada concepção de mundo. Sua obra é marca da pela questão do conhecimento e a associação com a atividade política. A Filosofia é filha da cidade (pólis) e ao mesmo tempo está à sua margem, por isso, os diálogos platônicos expõem os temas de um debate articulado, através da argumentação, e do impulso que desperta o pensamento e o conhecimento autêntico (epistéme) que ultrapasse as aparências (doxa).
Aristóteles apresentou diferenças substantivas em relação a Platão. Sua obra apresenta, em seu próprio modo de escrever e na escolha dos temas, uma organização que expressa o objeto e os modelos de investigação que propõe. Obras como "Metafísica", "Física", "Política", "Organon", "Poética", "Ética" identificam percursos e temas de um trabalho de demonstração argumentativa em que o logos é sistematizado.
- Filosofias do helenismo: é o período de expansão da Filosofia a partir do domínio exercido pelos macedônios e depois pelos romanos. A Filosofia deixa de ser centrada no mundo grego e ultrapassa as antigas fronteiras da ética. Nesse período podemos identificar algumas correntes como o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo, o neoplatonismo.
- As primeiras elaborações da tradição cristã: embora haja um longo debate sobre a existência de uma Filosofia cristã, nos primeiros séculos da era cristã há uma disputa entre as tradições do helenismo e o Cristianismo nascente. Embora este não tenha um caráter especulativo como as Filosofias helenistas podemos identificar, sobretudo a partir dos apologistas do século lI, a tentativa de um diálogo entre a Fé e a Razão, para atrair os pagãos e a incorporação de princípios da exposição filosófica. O aprofundamento dessas relações marca a passagem do final do período antigo para o início do período medieval.


FILOSOFIA MEDIEVAL
A figura de Agostinho de Hipona é apresentada como um dos últimos representantes da Antiguidade e por outros como o primeiro representante da tradição medieval. Longe de esgotar este debate, nos interessa identificar que a obra de Santo Agostinho é o resultado de uma sistematização que foi muito útil para a afirmação dos ensinamentos do Cristianismo, combatendo os céticos, e retomando parte da elaboração platônica, sem, contudo, ser ele mesmo um platônico.
O período da Filosofia medieval foi marcado pela instauração dos debates, as disputas como o choque entre Nominalistas e Universalistas. Houve uma separação dos saberes e dois campos de conhecimento: a Teologia, que investigava sobre as questões relativas a Deus, vista como superior; e a Filosofia, que abrangia todos os outros saberes, inclusive as investigações sobre natureza, fazendo com que a Filosofia fosse um nome dado a um grande número de saberes.
Outro grande nome da Filosofia medieval foi o de Tomás de Aquino, um dos responsáveis pela cristianização do pensamento aristotélico e pela modernização das teorias do mundo cristão. A apropriação de conceitos como "motor primeiro imóvel" e a clareza da demonstração tomistas em que é exposta uma tese, seguida dos argumentos favoráveis e contrários e a refutação desses últimos, indicava a capacidade do mestre em organizar os argumentos e realizar as sínteses da sua religião e também da obra de Aristóteles.


FILOSOFIA MODERNA
A Filosofia do período moderno tem uma pulverização de temas e abordagens. O humanismo, desde o século XIV, propunha a revalorização dos textos da Antiguidade e a defesa de uma nova ordem política, na qual a ação seria um elemento fundamental. Esta redescoberta dos textos da Antiguidade representou uma nova perspectiva não apenas política, mas também metodológica, que permitiu uma nova leitura do texto, superando os debates da escolástica medieval.
Com este despertar a teoria política e científica ganhou novos ares e as transformações pelas quais passava o continente europeu entre os séculos XV-XVIII foi marcada por um movimento de novas elaborações filosóficas: Maquiavel, Montaigne, Erasmo, More, Galileu, Descartes e Locke são alguns nomes que marcaram a Filosofia do período.
As perguntas sobre os fundamentos da realidade eram revestidos de questionamentos sobre o que é o conhecer e o papel do que se passou a chamar de "sujeito moderno". Do "cogito" cartesiano aos princípios da experiência, passando pelas novas invenções, temos um panorama de algumas das questões de fundo naquele momento.
Ao longo de todo o século XVIII desenvolveu-se a escola Iluminista com suas críticas ao mundo do Antigo Regime. Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot e outros elaboraram propostas que, muitas vezes, foram invocadas pelos revolucionários das 13 colônias inglesas ou da França.

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA
Um filósofo do século XVIII (Hume) e outro da transição do XVIII para o XIX (Kant) estabelecem a grande crítica à metafísica que marca o início da Filosofia Contemporânea. O idealismo kantiano marcaria muitas formas de expressão da Filosofia contemporânea.
Porém, a partir do XIX é quase impossível estabelecer uma unidade efetiva para o pensamento filosófico. O pensamento hegeliano é duramente atacado pela obra de Karl Marx e Friedrich Engels. A idéia de que a Filosofia deveria transformar o mundo e não apenas interpretá-lo encontrava poderoso eco na obra da dupla Marx/Engels. Ao mesmo tempo, o pensamento mais conservador de sistematização do conhecimento surgia dos escritos de Augusto Comte e seu Positivismo, defendendo suas leis sociais e a necessidade da ordem para o progresso.
No XIX estão as origens do pensamento Existencialista que teria muita força no século seguinte. É impossível entender os fundamentos da obra de Jean-Paul Sartre se não se levar em conta os escritos anteriores de Kierkegaard. A liberdade humana, o papel da angústia, a liberdade e uma "existência que precede uma essência" estiveram presentes em pensamentos existencialistas no século XX.
Também no final do século XIX todo o sistema racional filosófico sofre duras críti­cas de Nietzsche e sua forma original de escrever Filosofia.
Além do já citado Existencialismo, o século XX é acompanhado pelo desenvolvimento da Escola de Frankfurt, que a partir do período entre guerras projetou os nomes de filósofos como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benja­min. Questões sobre estética, as funções da linguagem uma teoria crítica da cultura marcaram a produção desta escola.

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FONTE (FREITAS NETO, J.A; KARNAL, L. O ensino de filosofia na escola pública do Estado de São Paulo. Vol. I, São Paulo:SEE, s/d, pp.24-27).

ROBINSON CURSOE - EXCERTO

"Andei sem rumo pela costa, pensando nos meus amigos, todos desaparecidos, com certeza mortos. O mar transformara-se em túmulo, além de carrasco.

Longe, mar adentro, o navio continuava imóvel, encalhado. Eu estava molhado, sem água e sem comida. Nos bolsos, apenas uma faca, um cachimbo e um pouco de tabaco. A noite avizinhava-se. Afastada da praia, encontrei uma pequena fonte de água doce. Matei a sede. Para enganar a fome, masquei um naco de fumo. Sem abrigo, sem armas e com medo de feras selvagens, subi numa árvore para passar a noite. Consegui encaixar o corpo cansado no meio de grossos galhos, sem perigo de cair durante o sono. Adormeci logo. (p. 23) [...].

O navio, trazido pela tempestade, havia se deslocado para um ponto bem próximo à praia. Continuava inteiro, sinal de que, se tivéssemos permanecido a bordo, estaríamos agora todos com vida. (p. 23) [...] Em primeiro lugar salvei os animais domésticos que viajavam no navio: um cachorro e quatro gatos. (p. 24) [...] Rapidamente fiz uma revista geral para ver o que podia salvar da carga. [...] Já havia decidido trazer do navio todas as coisas possíveis de serem transportadas. Sabia não ter muito tempo: a primeira tempestade faria o barco em pedaços. (p. 25) [...] Ia para bordo a nado e voltava sempre com uma nova jangada, aproveitando para salvar assim também o madeirame do navio. Consegui desse modo valiosas "riquezas" para um náufrago: machados, sacos de pregos, cordas, pedaços de pano encerado para vela, três pés-de-cabra, duas barricas[1] com balas de mosquete[2], sete mosquetes, mais outra espingarda de atirar chumbo, uma caixa cheia de munições, o barril de pólvora molhada, roupas, uma rede, colchões e - surpresa! - na quinta ou sexta viagem, quando já acreditava não haver mais provisões a bordo, encontrei uma grande reserva de pão, três barris de rum e aguardentes, uma caixa de açúcar e um tonel[3] de boa farinha... (p. 25-26) [...].


Meu futuro não parecia tão bom... Na verdade prometia ser triste, com poucas esperanças de salvação. Sozinho, abandonado numa ilha deserta, desconhecida e fora das rotas de comércio, não alimentava a menor perspectiva de sair dali com vida. Já me via velho e cansado, passando fome, sem forças para nada: morreria aos poucos. Isto se eu não morresse antes, vítima de alguma tragédia.

Muitas vezes deixei-me levar pelo desânimo. Não foram poucas as lágrimas que salgaram meu rosto. Nessas ocasiões, recriminava e maldizia a Deus. Como podia ele arruinar suas criaturas de modo tão mesquinho, tornando-as miseráveis, deixando-as ao completo abandono? (p. 29) [...].
Depois de dez dias, fiquei com medo de perder a noção do tempo. Improvisei um rústico, mas eficiente calendário. [...] Todos os dias, riscava no poste um pequeno traço. De sete em sete dias, fazia um risco maior para indicar o domingo. Para marcar o final do mês, eu traçava uma linha com o dobro do tamanho. Dessa forma, podia acompanhar o desenrolar dos dias, conseguindo situar-me no tempo.

Entre tantos objetos, havia trazido do navio tinta, papel e penas para escrever. E, enquanto a tinta durou, mantive um diário, relatando de forma resumida os principais fatos acontecidos. (p. 30) [...] A falta de ferramentas adequadas tornava alguns serviços extremamente demorados. Mas, afinal, para que pressa? Eu não tinha todo o tempo do mundo? [...] Também descobri que o homem pode dominar qualquer profissão que queira... Aos poucos, tratei de deixar mais confortável o meu jeito de viver. (p. 31) [...].

Foi nessa época que fiquei doente, com febre, e tive alucinações. Vendo a morte muito próxima, fui incapaz de ordenar minhas ideias e colocá-las com clareza no papel. Hoje sei que esse período foi um dos piores da minha vida. A febre veio de mansinho. (p. 36) [...] Num momento de lucidez, entre um ataque e outro de febre, lembrei-me de que, no Brasil, se usava fumo para curar a malária. E eu tinha, num dos caixotes, um pedaço de fumo em rolo e algumas folhas ainda não defumadas. Foi a mão de Deus que me guiou. Buscando o fumo, achei uma Bíblia, guardada no mesmo lugar.

O fumo curou-me a febre: não sabia como usá-lo, por isso tentei diversos métodos ao mesmo tempo. Masquei folhas verdes, tomei uma infusão de fumo em corda com rum, aspirei a fumaça de folhas queimadas no fogo. Não sei qual dos métodos deu resultado: talvez todos juntos. A verdade é que sarei em pouco tempo. A Bíblia foi um bom remédio para a alma. (p. 37) [...].
Sempre quis conhecer a ilha inteira, ver cada detalhe dos meus domínios. Acreditei que tinha chegado a hora. Peguei minha arma, uma machadinha, uma quantidade grande de pólvora e munições, uma porção razoável de comida e pus-me a caminho, acompanhado de meu cão... (p. 42) [...] Na volta, apanhei um filhote de papagaio. Os colonos brasileiros costumavam domesticá-los e ensiná-los a falar. Pensei em seguir-lhes o exemplo. (p. 43) [...].

Foi no início da estação das chuvas. Passando perto da paliçada[4], num canto em que o rochedo projetava sua sombra, meus olhos fixaram-se em pequenos brotos germinando. Nunca tinha visto aquelas plantinhas ali. Curioso, aproximei-me a acreditei estar presenciando um milagre: uma ou duas dúzias de pezinhos de milho surgiam da terra. Era milho e da melhor espécie, não havia dúvida. (p. 32) [...] Reconhecido, agradeci à Divina Providência por mais esse cuidado. Só passado algum tempo é que me lembrei de um fato acontecido dias antes. Precisava de algo para guardar restos de pólvora. Procurando no depósito da caverna, achei um velho saco de estopa. Pelos vestígios, no passado servira para armazenar grãos: no seu fundo havia cascas e migalhas de cereais. Para limpar o saco, sacudi esses restos num canto, perto da cerca: milagrosamente haviam germinado! (p. 33) [...].

Precisava de algo para moer o milho e transformá-lo em farinha. Sem instrumentos para fazer um pilão de uma pedra, fiz um de madeira, usando a mesma técnica que os índios brasileiros empregavam na confecção de suas canoas: queimavam a madeira, escavando-a, a seguir, com a plaina[5] (p.46). [...].

Poll, meu papagaio, aprendera a falar e acompanhava-me aonde quer que eu fosse. Fazia-me bem ouvir outra voz além da minha: pena não ser de algum homem." (p. 54).


DEFOE, Daniel. Robinson Crusoé - A conquista do mundo numa ilha. Adaptação em português de Werner Zotz. São Paulo: Scipione, 1986. Série Reencontro.


[1] Pequeno recipiente de madeira, destinada a armazenar mercadorias.
[2] Antiga arma de fogo, parecida com uma espingarda.
[3] Grande recipiente de madeira formado por dois tampos planos e tábuas encurvadas unidas por aros metálicos.
[4] Cerca feita com estacas apontadas e fincadas na terra.
[5] Ferramenta manual para aplainar, desbastar, facear e alisar madeiras.
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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 1ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.23-25)

HOMO SAPIENS, HOMO DESTRUENS

O PESSIMISMO A QUE SE REFERE O PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO
O processo evolutivo do big bang até o surgimento da humanidade passou por violentos cataclismos de vida e de morte. Mas lentamente a vida se firmou contra as ameaças da natureza até o advento do ser humano. Alguém que ontem não tinha consciência de si hoje inicia o processo de humanização. Aos poucos enfrenta a natureza em sua forçfi e agressividade. Dotado de razão, fabrica instrumentos como meios para subjugá-la. Quanto mais aperfeiçoa as ferramentas, tanto mais agride o ambiente. No começo, tudo caminha lentamente.
Com facilidade, imaginamos a Idade Média como momento cultural de contemplação. A expansão enorme da vida religiosa contemplativa, com mosteiros e conventos situados em lugares geográficos maravilhosos, criava uma mentalidade de admiração diante da beleza da natureza. Esta se tornara a matriz do pensar, do rezar, do agir. O ser humano se sentia pequeno em face dela: Ora o fascínio diante de momento de esplendor de beleza, ora o temor em face de catástrofes despertavam nele o sentimento religioso.
Isso é parte da verdade. Estudiosos da tecnologia denunciam ali inícios de devastação da natureza por conta da indústria do vidro, do couro e do abate de animais. Derrubavam-se árvores 'para alimentar o fogo dessa indústria incipiente e aquecer as casas no frio. Sem cuidados de higiene, já se poluíam as águas e os cortes da natureza feriam o equilíbrio. Anunciavam-se já estragos que rompiam a harmonia do ambiente.
O ser humano diferencia-se do animal ao introduzir desequilíbrios no mundo circundante. Em vez de ler a natureza nos seus sinais de vida e morte, impõe suas regras com outra lógica. E, aos poucos, o jogo entre vida e morte se inclina para o aumento da vida humana à custa de toda outra vida.
J. B. Libanio, sj
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FONTE:(O Domingo, ANO LXXVIII- Remessa VI – 18/04/2010- nº21)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

COMENTARIO AO CANTICO DO FREI SOL

O Cântico de Frei Sol é o ponto máximo na oração de Francisco. Já transformado segundo a imagem do Filho de Deus, ele convida todas as criaturas a louvarem o Altíssimo.

Explicitamente, nem aparece nenhuma menção quer ao próprio Jesus quer à Trindade, como sempre acontecia em todas as suas orações.

Composto durante um inverno rigoroso, numa dura situação de doença e abandono, parece um hino juvenil de primavera.

Ele parece ter diante de si uma imagem interior e colossal de Deus Senhor do mundo e convida todos os elementos, transformados em Freis e Irmãs (uma integração do masculino e do feminino) para louvarem, como em dois coros, o Senhor que é altíssimo, onipotente e bom.
Jesus é aquele que canta mas também é evocado na figura do sol (imagem muito usada na liturgia antiga) e está insinuado nas trinta e três linhas do cântico original e num imenso monograma traçado entre e primeira e a última linha por um confronto das expressões: Altíssimo com humildade (Jesus é o altíssimo que se fez pequeno) onipotente com servo (em Jesus o onipotente se fez servidor) e bom Senhor com agradecei (como Deus, ele nos dá todos os bens, como Deus feito homem ele vem encabeçar o nosso agradecimento em palavras e em atos.

Este cântico tem um profundo sentido missionário. As fontes históricas dizem que Francisco o compôs com letra e música e chamou os frades para aprendê-lo. Deviam sair por toda parte. Um deles faria uma pregação e depois todo o grupo devia cantar para animar todas as pessoas a louvarem ao Senhor.

Nem a Irmã Morte foi esquecida, abrindo para todas as pessoas uma visão amorosa de tudo que Deus nosso Pai dispôs para nós.

O Francisco deste cântico foi movido por uma certeza, dada por Deus, de que ele tinha a salvação eterna garantida. Viver a eternidade é viver Deus e por isso é viver dando-lhe glória e louvor.

Por isso é bom ver que o sol louva a Deus sendo sol, o fogo sendo fogo... e nós realizando o que Deus sonhou para nós desde o princípio: que sejamos imagens realizadas, completas, plenas na limitação de cada um, imagens do nosso irmão mais velho, o Primogênito de todas as criaturas, que é Jesus.

Com o olhar iluminado pelo Espírito de Deus, conseguimos enxergar todo esse louvor que sobe sem cessar de todos os seres e encontramos nossa felicidade em dar voz a todos esses irmãos e irmãs. Nossa vida torna-se feliz e bem-aventurada se percebemos que nenhum mal pode impedir que reine o amor que vem de Deus.


(Fr. José Carlos C. Pedroso - Rezemos com São Francisco e Santa Clara)


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FONTE: (http://www.procasp.org.br/)

CANTICO DO FREI SOL

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo
Pela qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.

Bem aventurados os que sustentam a paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes á tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

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FONTE:(http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/especiais/cantigo_do_sol/)

terça-feira, 6 de abril de 2010

MINHAS FILOSOFIAS FAVORITAS

1º Um homem com um relógio sabe que horas são; no entanto, se tiver com dois, jamais terá certeza;
.
2º Não olhe onde você caiu, mas onde você escorregou;
.
3º Olhe a vida através do para brisa, e jamais pelo retrovisor;
.
4º As pessoas podem duvidar do que você fala, contudo, acreditarão no que você faz;
.
5º Seja gentil com as pessoas enquanto estiver melhorando de vida; nunca se sabe de quem você vai precisar se acaso vier a cair;
.
6º Nunca explique. Seus amigos não precisam de suas explicações; seus inimigos, jamais as acreditarão;
.
7º Quando quiser se vingar, cave duas sepulturas: uma delas servirá a você;
.
8º O tempo que você perdeu se divertindo, não foi perdido;
.
9º Coragem não é ausência de medo; é a capacidade de reagir a ele;
.
10º Você crescerá independente da altura de seu pai;
.
11º A melhor forma de predizer seu futuro é criá-lo;

GORDINHO

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MAURITS CORNELIS ESCHER

Maurits Cornelis Escher (1898-1972)





era holandês e nasceu na cidade de Leeuwarden. Seu pai queria que o filho seguisse alguma carreira relacionada às Ciências Exatas.
Observou que o filho tinha jeito para as artes plásticas e, achou que ele poderia tornar-se arquiteto. Escher até estudou arquitetura, mas não se formou. Gostava mesmo era de desenhar. Seus professores e Arte não o consideravam um artista. De qualquer forma, seu pai acreditava nele e o sustentou no início da carreira. Depois, sua obra foi mundialmente reconhecida, e hoje é visto como um dos grandes artistas gráficos do século XX. Fez gravuras, litografias, ilustrou livros, pintou murais, entre outros trabalhos.
Inúmeros são os sites sobre M. C. Escher. Hoje existe a Fundação M. C. Escher, cujo site oficial é: . Além disso, há o museu M. C. Escher na cidade de Haia, Holanda. Por meio do site é possível fazer uma visita virtual ao museu e saber mais sobre as obras de Escher .

A obra de M. C. Escher ajuda a trabalhar o tema do imediatismo e superficialidade olhar de forma lúdica, porque muitas vezes as pessoas olham e se contentam com o primeiro olhar para explicar algum acontecimento ou pessoa. O problema é que, por isso, não conseguem entender muito bem o que se passa, já que o olhar é ligeiro, casual e, por vezes, também repleto de sentimentos e preconceitos. Escher gostava de brincar com o nosso olhar. com o imediatismo do olhar. Para ele, desenho é ilusão. O desenho procura mostrar a superfície bidimensional algo que é tridimensional.








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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 1ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.16-17)

OBRAS DE ESCHER

Se, se quiser construir um conhecimento coerente e consistente, será preciso afastar as prenoções e os julgamentos de valor que estão presentes no senso comum. O olhar que evita essas posturas relacionadas ao senso comum é o olhar do estranhamento.
Para trabalhar isso de forma mais clara e mostrar que é necessário desenvolver um treino do olhar, a sugestão é uma dinâmica a partir da discussão de gravuras do artista plástico holandês Maurits Cornelis Escher.

"Desenhar" litografia de 1948 . A obra de M. C. Escher ajuda a trabalhar o tema do imediatismo e superficialidade olhar de forma lúdica, porque muitas vezes as pessoas olham e se contentam com o primeiro olhar para explicar algum acontecimento ou pessoa. O problema é que, por isso, não conseguem entender muito bem o que se passa, já que o olhar é ligeiro, casual e, por vezes, também repleto de sentimentos e preconceitos.
Escher gostava de brincar com o nosso olhar. com o imediatismo do olhar. Para ele, desenho é ilusão. O desenho procura mostrar a superfície bidimensional algo que é tridimensional.



Por meio de sua obra é possível refletir um pouco sobre a superficialidade do olhar e debater sobre a questão do "certo" e do "errado". Observe a seguinte figura (“Um outro mundo I”, 1946):


Na figura apresentada, Escher mostra, de diferentes ângulos em um mesmo desenho, uma espécie de pássaro com cabeça de homem. Por meio desse desenho podemos entender que há várias formas de olhar esse pássaro-homem, e que, a cada vez que é lançado um olhar diferente, o vemos de outro ângulo: ora por cima, ora por baixo, ora da direita para a esquerda, ora da esquerda para a direita. De qualquer forma, ele nos mostra que não há uma única forma de olhar esse pássaro-homem, pois vários podem ser os pontos de vista. O mesmo ocorre com um fato ou um acontecimento, pode-se observá-lo de diferentes ângulos.
Pense num exemplo de acontecimento que pode ser olhado sob os mais diferentes ângulos. Como mostra, pode-se exemplificar com algo cotidiano, como uma partida de futebol: ela pode ser descrita das mais diferentes formas. Questione-se! Quais pontos de vista você acha que podem ser os possíveis? Anote as possibilidades e continue a indicar outras.
Aqui estão algumas dicas de possibilidades:
* o ângulo de observação:
1. dos jogadores dos diferentes times;
2. das diferentes torcidas no estádio;
3. de quem assiste ao jogo pela televisão e que pode ver um replay das jogadas;
4. dos comentaristas esportivos profissionais;
5. dos torcedores depois de lerem as matérias nos jornais e revistas e assistirem aos canais de televisão;
6. o ângulo do juiz e dos bandeirinhas;
7. dos vendedores ambulantes - provavelmente para eles um bom jogo é um jogo em que podem vender muito os seus produtos e não necessariamente o que é um bom jogo do ponto de vista dos torcedores; entre outros exemplos que achar pertinente.

Infinitas são as possibilidades de observar a realidade. E todas dependem dos diferentes ângulos que adotamos. Se quisermos fazer uma análise da realidade o mais isenta possível, devemos tentar observá-la do maior número possível de ângulos e perspectivas. Acontece que muitas vezes não paramos para olhar uma situação de diferentes ângulos. Não é difícil as pessoas aceitarem a primeira explicação dada, aquilo que um primeiro olhar mostra. Mas, ­para entender a realidade de um ponto de vista sociológico, não basta lançar um único olhar, pois o primeiro olhar, muitas vezes, não é imparcial.

A análise das figuras a seguir serve justamente para debater a superficialidade do olhar, e como as pessoas podem se equivocar por não lançar um segundo olhar a elas.

"Belvedere" litografia 1958

Observe a imagem: O que você acha que esse desenho tem de errado? Especule um pouco e faça suas considerações sobre o trabalho do artista. O trabalho de Escher parece um desenho qualquer, mas são mais do que bonitos ou feios: são instigantes, pois fazem pensar. Observe a escada de mão, há um problema ali: se um andar está em cima do outro, como é que uma escada de mão sai do primeiro pavimento e alcança o segundo? Ela precisa estar inclinada para ir de um andar para o outro, mas isso não é possível se um andar está acima do outro de forma paralela. Logo, como isso é possível? Especule sobre isso!
Na verdade, o andar de cima não está paralelo ao de baixo, ou seja, não está exatamente em cima do de baixo. Eles estão perpendiculares, pois a parte de baixo está virada de frente para o casal que vai subir as escadas, e a parte superior está virada para outra direção, ou seja, a parte de cima forma um "xis" com a parte de baixo, e, por isso, a escada pode sair do andar inferior e atingir o superior.
Repare nas duas pessoas que estão nos andares apreciando a vista. Na parte superior há uma mulher cujo rosto, qualquer observador externo pode ver, e na parte inferior há um homem de costas, que apóia a mão no pilar. Se o desenho não tivesse sido feito dessa forma distorcida, não seria possível ver o rosto dela, pois ela também estaria de costas para o observador, ou os dois deveriam estar de frente. Entretanto, como os andares se encontram como se estivessem "cruzados", um rosto é visível e o outro não, pois os andares apontam para diferentes direções.
Por fim, se restar dúvida ou não puder perceber essa disposição, atente que os pilares estão quase todos cruzados: os pilares do fundo se apóiam na parte da frente e os da frente e apóiam ao fundo.
Perceber tudo isso com um primeiro olhar é impossível. E se há algo que a Sociologia mostra às pessoas é o fato de que "a realidade social apresenta-se como possuidora de muitos significados. A descoberta de cada novo nível modifica a percepção do todo" (BERGER, 1976, p. 32-33).

Agora dirija o olhar para a próxima imagem ("Queda d'agua", litografia 1961).
Observe esta imagem e diga o que acham que Escher fez com ela. Mais uma vez há um desenho, talvez interessante, mas não necessariamente bonito ou feio. Mais um desenho que não chama muito a nossa atenção em um primeiro olhar, como muitos fatos e acontecimentos que ocorrem à nossa volta. Questione-se!
Alguém já viu água subir? E, aqui, a água não só sobe, como sobe em ziguezague para cair no mesmo lugar de onde saiu.
O primeiro problema é que a água sobe para cair. Impossível.
O segundo problema é que consegue subir em ziguezague e cair no mesmo lugar. Impossível também.
Um terceiro problema: se a água sobe em ziguezague, como é que os pilares se apóiam uns nos outros? Em um percurso em ziguezague, era para uns estarem mais à frente e outros mais atrás, mas ele os deixou uns sobre os outros.
Mais uma vez Escher brincou com a credulidade de nosso olhar. Ele distorceu a perspectiva para fazer com que isso tudo seja possível.


"Relatividade", litografia 1962
A análise desta outra imagem ajuda na discussão sobre o que é certo e o que é errado. Ou seja, o olhar imediatista que lançamos sobre a realidade pode estar errado e repleto de preconceitos que precisam ser deixados de lado. Aquilo que parece certo de determinado ângulo, pode ser errado de outro.
Há muitas escadas. Umas com figuras subindo, outras descendo, outras de ponta­cabeça, nas mais diferentes direções. Questione-se: Quem está "certo"? Quem está "errado"? O que é certo ou errado?
Aponte para uma escada que esteja de ponta-cabeça e questione. Está errada? Mas o que acontece se você virar a figura? A escada que estava certa passa a ficar errada e a errada se torna certa. O que é certo ou errado? E se virar de novo o caderno?
Este desenho ajuda a refletir sobre a relatividade de nossos pontos de vista, de nossa perspectiva, pois quando se muda o ângulo por meio do qual se vê algo, pode-se às vezes compreendê-lo de uma forma melhor. Ajuda a refletir a respeito da questão dos preconceitos.

No caso da Sociologia, deve-se ter em mente que sempre será necessário fazer o esforço mental de procurar diferentes ângulo para conseguir aproximar-se da realidade. Afastar-se dos juízos de valor é um cuidado metodológico fundamental do sociólogo para entender as situações sociais.
Muitas vezes, as pessoas não querem fazer isso, ou seja, não querem assumir outro ângulo para observar um fato ou acontecimento. Questione-se: Por que você acha que muitas pessoas não querem adotar um outro ponto de vista?
Primeiro, porque às vezes acham que estão sempre certas e os outros, errados. Mas isso não é possível, pois não existe ninguém que está sempre certo.
Segundo, por que se a pessoa está certa, então o outro está errado, e assim ela não precisará rever seu ponto de vista. Logo, é cômodo para muitos não lançar outro olhar para analisar uma questão, pois assim não terão de mudar de opinião. Não se pensa sociologicamente a partir de uma atitude comodista.

Pense em exemplos do cotidiano: um desentendimento em casa. Muitas vezes, quando há um desentendimento em casa, ele ocorre porque as pessoas não conseguem se colocar umas no lugar das outras. Os pais parecem se esquecer de que já foram jovens e os filhos, por sua vez, não tentam se colocar no lugar dos pais para entender suas preocupações. De igual modo acontece na escola, nas relações entre alunos e professores ou entre os alunos.
Agora pensando na realidade social mais ampla, esforce-se e atente-se nos interesses divergentes entre diferentes categorias profissionais, ou entre países ou ainda entre grupos em uma cidade.


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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 1ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.16-20)

DANIEL DEFOE

Daniel Defoe nasceu na Inglaterra, em 1660, filho de burgueses de origem holandesa.
Educado como protestante e dotado de grande espírito crítico, escrevia e distribuía panfletos criticando o rei católico Jaime II e, posteriormente, a rainha Ana, que procurou renovar a Igreja anglicana. Por essa razão, foi preso duas vezes. Em sua vida, viajou a Portugal e à Espanha, onde aprendeu sobre a vida nas colônias portuguesas e espanholas na América. Escreveu também O capitão Singleton, O coronel Jack, Roxana, O capitão Carleton e a obra-prima As aventuras e desventuras de Mol! Flanders.
.

Obra: escrita em 1719, Robinson Crusoé é a obra que o tornou famoso. O romance foi inspirado na história verídica de um marinheiro escocês, que por quatro anos viveu isolado na ilha de Juan Fernandez, no Caribe. O livro conta a vida do jovem inglês Robinson Kreutznaer, logo conhecido como Robinson Crusoé. Tendo gosto por aventuras, torna-se marinheiro e experimenta toda sorte de peripécias, chegando inclusive a viver por algum tempo no Brasil. Em uma expedição mal sucedida rumo à África, o navio em que viajava encalha e o bote salva-vidas naufraga com todos a bordo. Crusoé é o único sobrevivente e passa a viver sozinho em uma ilha desabitada, utilizando apenas os recursos que consegue salvar dos destroços do navio encalhado e sua própria engenhosidade em produzir as ferramentas e os utensílios necessários para a sua sobrevivência durante os anos em que vive na ilha.
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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 1ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.23-25)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

CIDADANIA MODERNA: DIREITOS SOCIAIS NA LINHA DO TEMPO

Os direitos sociais, tais quais se conhece hoje, são um aprimoramento do que eles foram no passado. O processo de construção da cidadania não de seu de uma hora para outra. Pelo contrário, foi algo lento, árduo e que envolveu muito esforço por parte dos grupos sociais que se empenharam em obtê-los.
Uma coisa, no entanto, tem de ficar claro: a luta pelos direitos sociais é um processo ativo e que conta a participação e o envolvimento de todos os cidadãos enquanto sujeitos sociais. Tomando por exemplo a linha do tempo, logo abaixo, a partir da Inglaterra, é importante observar que as conquistas dos trabalhadores ingleses tiveram intensa repercussão no continente europeu e influenciaram muitas das lutas operárias pelos direitos sociais durante todo o século XIX.
1) 1799 e 1800: após a Revolução Francesa, temendo que os sindicatos se tornassem centros de agitação política, as coalizões operárias são decretadas ilegais por meio dos Combination Acts.

2) 1802 e 1819: primeiras Leis Fabris fixam a idade mínima para o trabalho em 9 anos e a jornada máxima em 12 horas para a faixa etária entre 9 e 16 anos. Regulamentavam apenas o trabalho na indústria têxtil de algodão.

3) 1821: proibição do trabalho noturno aos menores de 21 anos.

4) 1824: é revogado o Combination Acts, e o movimento sindical passa a ser legal, desencadeando uma onda maciça de greves.

5) 1825: o sindicalismo é regulamentado e os direitos das coalizões operárias são limitados à barganha pacífica de salários e condições de trabalho. Sindicalistas não devem "molestar", "obstruir" ou "intimidar" empregadores ou fura-greves.

6) 1833: menores de 13 anos não poderiam trabalhar mais do que 9 horas por dia e 48 horas por semana. Proibição do trabalho noturno aos menores de 18 anos. Dois turnos de 8 horas de crianças eram permitidos. Quatro inspetores deveriam garantir a execução dessas normas. Regulamentava apenas o trabalho na indústria têxtil de algodão.

7) 1844: mulheres e adolescentes entre 13 e 18 anos não poderiam trabalhar mais do que 12 horas por dia. Menores de 13 anos deveriam trabalhar no máximo 6 horas e meia. Idade mínima para o trabalho: 8 anos. Regulamentava apenas o trabalho na indústria têxtil de algodão.

8) 1847: mulheres e adolescentes entre 13 e 18 anos não poderiam trabalhar mais do que 10 horas por dia. Regulamentava apenas a indústria têxtil.

9) 1850: crianças deveriam trabalhar somente nos mesmos horários que as mulheres e adolescentes.
Regulamentava apenas a indústria têxtil.

10)1864: a regulamentação é estendida para seis novos ramos industriais.

11) 1867: a regulamentação é estendida para todas as fábricas que empregavam menos de 50 pessoas. Nenhuma criança menor de 8 anos poderia trabalhar em qualquer tipo de oficina.

12) 1878: as Leis Fabris são aplicadas a todo tipo de indústria e comércio. A idade mínima para o trabalho é de 10 anos. A educação torna-se obrigatória até os 10 anos e crianças entre 10 e 14 anos só podem trabalhar por meio período. Mulheres não podem trabalhar por mais de 56 horas por semana.
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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 3ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, p.19)

CIDADANIA MODERNA: DIREITOS SOCIAIS

Direitos Sociais: dizem respeito ao atendimento das necessidades básicas
do ser humano, como alimentação, habitação, saúde, educação, trabalho,
salário justo, aposentadoria etc.A cidadania moderna: direitos sociais



A necessidade de garantir melhores condições de vida para a população tornou-se uma bandeira dos revolucionários franceses no final do século XVIII, quando as tensões sociais de séculos de Absolutismo, acirradas nos reinados de Luís XIV e Luís XV, irromperam de forma violenta contra o Estado.
Com o advento da Revolução Industrial e a formação da classe operária nos centros urbanos, a luta pela regulamentação das condições de trabalho teve início no século XIX e se perpetuou durante todo o século XX. Nesse período, é importante destacar dois movimentos chave para entendimento da ampliação dos direitos de cidadania: a Primeira Revolução Industrial e a organização da classe operária na luta pelo direito de fazer greve, de se reunir em sindicatos e de regulamentar a jornada de trabalho (direitos sociais).

Atente para a imagem e identifique o contexto, a época e os sujeitos representados na foto (fábrica, século XIX, Revolução Industrial, crianças trabalhando). Em seguida, descreva as condições de trabalho dos operários europeus no inicio do século XIX.



Olhando para o quadro de Van Gogh, Os comedores de batatas, e após a leitura do trecho do texto de Friedrich Engels, é possível descortinar a situação da classe operária na Inglaterra:



"A alimentação habitual do trabalhador individual varia, naturalmente, de acordo com o seu salário. Os trabalhadores melhor pagos, especialmente aqueles em cujas famílias cada membro é capaz de ganhar alguma coisa, têm boa alimentação, pelo menos enquanto essa situação durar: há carne diariamente e toicinho e queijo à noite. Quando a renda é menor, comem carne apenas duas ou três vezes na semana e a proporção de pão e batata aumenta. Descendo gradualmente, nós encontramos o alimento animal reduzido a um pequeno pedaço de toicinho cortado com batatas. Mais baixo ainda, até mesmo isso desaparece e permanece apenas pão, queijo, mingau de aveia e batata; até o último grau, entre os irlandeses, onde a batata é a única forma de alimento. [...] Mas, tudo isso pressupõe que o trabalhador tenha trabalho. Quando não o tem, ele fica totalmente à mercê do acaso e come o que lhe dão, o que ele mendiga ou rouba. E quando ele não consegue nada, ele simplesmente morre de fome, como vimos. A quantidade de alimento varia, obviamente, assim como sua qualidade, de acordo com o salário, portanto, os trabalhadores pior pagos passam fome, mesmo que eles não tenham uma grande família e ainda que possuam um trabalho regular. E o número desses trabalhadores mal pagos é muito grande. Particularmente em Londres, onde a competição dos trabalhadores aumenta com o crescimento da população, esta classe é muito numerosa, mas é encontrada também em outras cidades. [...] Certamente, tal modo de vida provoca, inevitavelmente, uma grande quantidade de doenças [H.] então a miséria alcança o seu auge, e a brutalidade com que a sociedade abandona seus membros, principalmente quando sua necessidade é maior, é plenamente exposta." ENGELS, Frederick. The great towns.

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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 3ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.17-18)

CIDADANIA MODERNA: DIREITOS POLÍTICOS


Direitos Políticos: Referem-se à participação do cidadão no governo da
sociedade e consistem no direito de fazer manifestações políticas, de se
organizar em partidos, sindicatos, movimentos sociais, associações,
de votar e ser votado.

A participação de todos os segmentos de um grupo nas decisões de seus governos é uma característica fundamental das sociedades contemporâneas. Contudo, o direito de votar e ser votado, de eleger representantes, de constituir assembleias, formar partidos, tomar decisões, elaborar leis e constituições nem sempre foi uma prerrogativa de todos os cidadãos.
Para que isso fosse possível, foi preciso que todos tivessem assegurados seus direitos políticos. A conquista desses direitos caminhou juntamente com a luta por direitos civis e sociais e é fruto da disputa entre as diferentes classes sociais que detinham o poder e as que desejavam participara das decisões políticas.
Até a Revolução Francesa, a aristocracia, representada pelas famílias que detinham grandes propriedades de terra e títulos de nobreza, além dos membros que ocupavam os cargos mais altos da Igreja (alto clero), concentrava mais poder do que o restante da população. Após a revolução, a burguesia, representada pelos comerciantes, pequenos proprietários, profissionais liberais, entre outras categorias profissionais, começou a participar ativamente das decisões do Estado. Durante o século XIX, a luta pela ampliação do sufrágio masculino aos não-proprietários, juntamente com o movimento das mulheres pelo direito de votar e se emancipar, marcaram a história da conquista dos direitos políticos.
Servem de exemplo, no processo de ampliação da participação do poder, os diferentes grupos sociais que o reivindicaram nos seguintes processos:
* Revoluções Inglesas de 1640 e 1688: assinalaram uma mudança nas relações de poder na sociedade e Estado ingleses, em que a classe burguesa conseguiu limitar o poder do rei com a criação da Monarquia Constitucional. A partir desse momento, o Parlamento passa a ter atuação decisiva no governo, tendo apoio das classes mercantis e industriais nos centros urbanos e no campo, dos pequenos proprietários rurais, da pequena nobreza e da população comum;
* Revolução Americana de 1776: estabeleceu a divisão de poderes, a eleição regular para presidente e uma Constituição baseada em princípios de liberdade. Formalmente, era a sociedade mais democrática da época, embora brancos pobres, mulheres e escravos negros não pudessem votar;
* Revolução Francesa de 1789: derrubou a Monarquia Absolutista, estabeleceu um governo de representação popular, promulgou uma Constituição que estendeu o direito de votar e ser votado aos cidadãos "ativos" (homens com mais de 21 anos, dotados de domicílio legal há um ano, que vivessem de sua renda ou produto do seu trabalho. Todos que preenchessem esses requisitos e tivessem mais de 25 anos eram elegíveis).
Um dos exemplos mais contundentes na história da luta pelos direitos políticos ocorreu, certamente, durante a Revolução Francesa. Uma sugestão é o filme Danton: o processo da Revolução. (di­reção de Andrzej Wajda, 1982).

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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 3ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.16-17)

CIDADANIA MODERNA: DIREITOS CIVIS E A DECLARACAO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADAO


A Declaração de Independência dos Estados Unidos inspirou outro importante documento, que constitui um marco na história da cidadania: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 26 de agosto de 1789, pelo Terceiro Estado (constituído por plebeus de todo tipo, entre burgueses, profissionais liberais, ocupantes do baixo clero, comerciantes, operários, artesãos etc.).
Art. 1º Os homens nascem e são livres c iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.
Art. 2º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a prosperidade, a segurança e a resistência à opressão.
Art. 3º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhuma operação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
Art. 4º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo. Assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.
Art. 5º A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.
Art. 6º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.
Art. 7º Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por esta [declaração] prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência.
Art. 8º A lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.
Art. 9º Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei.
Art. 10º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.


Disponível em:
http://www.díreítoshumanos.usp.br/counter/Doc_Histo/texto/Direítos_homem_cidad.html>.
Acesso em: 4 out. 2008.

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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 3ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, p.15)

CIDADANIA MODERNA: DIREITOS CIVIS E A CONSTITUICAO DOS EUA

A história da luta pelos direitos civis pode ser identificada já no século XVII, quando o parlamento inglês promulgou em 1689 o Bill of Rights (Carta de Direitos), garantido ao povo uma série de direitos que o protegia de atos arbitrários por parte da Coroa. Esse movimento é um precursor dos eventos históricos que marcariam o fim do Absolutismo e colocariam os cidadãos, agora não mais súditos do rei, na condição de sujeitos políticos, ou seja, participantes efetivos do poder do Estado.
Um exemplo disso ocorreu na Revolução Americana e encontra-se explicitado na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.
Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade."
Disponível em: .
Acesso em: II novo 2008.
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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 3ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, p.14)

CIDADANIA MODERNA: DIREITOS CIVIS


Direitos Civis: Dizem respeito à liberdade dos indivíduos e se baseiam na
existência da justiça e das leis. Referem-se à garantia de ir e vir, de escolher
o trabalho, de se manifestar, de se organizar, de ter respeitada a
inviolabilidade do lar e da correspondência, de não ser preso e não sofrer
punição a não ser pela autoridade competente e de acordo com a
legislação vigente.
Direitos Civis: Dizem respeito à liberdade dos indivíduos e se baseiam na existência da justiça e das leis. Referem-se à garantia de ir e vir, de escolher o trabalho, de se manifestar, de se organizar, de ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondência, de não ser preso e não sofrer punição a não ser pela autoridade competente e de acordo com a legislação vigente.
A história do desenvolvimento da cidadania moderna remota ao Iluminismo e está relacionada à conquista de quatro tipos de direitos: os direitos civis, no século XVIII; os direitos políticos e sociais, no século XIX (cuja luta perdurou até o século XX) e os direitos humanos, no século XX.
Os filósofos iluministas, destacando-se entre eles John Locke, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, lançaram as bases para a percepção moderna da relação entre Estado e indivíduos, agora não mais uma relação entre súditos e soberanos absolutos, mas entre indivíduos dotados de razão que possuem "direitos naturais" - direitos que são do próprio homem, ou seja, com os quais os homens nascem ­como à vida, à liberdade e à propriedade. Abre-se espaço, assim, para o nascimento do Estado de Direito.
A seguir, de forma sucinta, a contribuição de cada um desses pensadores iluministas na constituição de novas formas de pensar a relação entre súditos de uma nação e seus governantes:
* John Locke (1632-1704): defendia que todos os homens são iguais, independentes e governados pela razão. No estado natural, teriam como destino preservar a paz e a humanidade, evitando ferir os direitos dos outros, inclusive o direito à propriedade, considerado por Locke um dos direitos naturais do homem. Para evitar que alguns tirassem vantagens para si próprios, ou para os amigos, entrando em conflito, os homens teriam abandonado o estado natural e criado um contrato social entre homens igualmente livres;
* Voltaire (1664-1778): defendia a liberdade de expressão, de associação e de opção religiosa, criticando o poder da Igreja Católica e sua interferência no sistema político. Foi um crítico do Absolutismo e das instituições políticas da Monarquia, defendendo o livre comércio contra o controle do Estado na economia;
* Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): defendia a liberdade como o bem supremo, entendida por ele como um direito e um dever do homem. Renunciar à liberdade é renunciar à própria humanidade. Para que o homem possa viver em sociedade, sem renunciar à liberdade, ou seja, obedecendo apenas a si mesmo e permanecendo livre, é estabelecido um contrato social em que a autoridade é a expressão da vontade geral, expressão de corpo moral coletivo dos cidadãos. Desse modo, o homem adquire liberdade obedecendo às leis que prescreve para si mesmo.

Essas ideias foram muito importantes para o desenvolvimento do que hoje se entende por cidadania. A base para a concepção de cidadania é a noção de Direito. Mas que direitos são esses? Hoje se fala em direitos "civis", "políticos", "sociais" e "humanos", mas a definição clara do que seria cada um deles e a quem seriam aplicados nem sempre foi definitivamente estabelecida e ainda é fonte de intensos debates.

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FONTE: (SP-SEE. Caderno do professor: sociologia, EM 3ª série, vol.1. São Paulo: SEE, 2009, pp.12-13)