quarta-feira, 15 de agosto de 2012

HEIDEGGER, Martin


Martin Heidegger[1]
Nascido em Messkirch, na região de Baden, Alemanha, Martin Heidegger (1889-1976) desenvolveu sua formação filosófica na Universidade de Freiburg, onde Edmund Husserl era professor. Publicou, em 1927, uma de suas mais importantes obras, Ser e tempo.
Com a ascensão de Hitler ao poder, em 1933 afastou-se de seu antigo mestre e amigo Husserl, que era judeu. Não muito tempo depois, porém, talvez por tomar consciência das crescentes atrocidades nazistas, demitiu-se da Universidade de Freiburg, da qual era então reitor, e isolou-se em sua casa nas montanhas da Floresta Negra, mantendo poucos contatos até sua morte.

Ente e ser
Rompendo com a tendência dominante da filosofia moderna, que desde Descartes estava voltada para a teoria do conhecimento, Heidegger retomou a questão da ontologia, a investigação do ser. Para ele, o problema central da filosofia é o ser, a existência de tudo.
O filósofo negou que fosse um existencialista. Devemos, segundo afirmava, começar investi nossa existência porque é dela que, primeiramente temos consciência. Mas uma filosofia que colocasse apenas o ser humano como centro de preocupação seria antes uma antropologia. Por isso dizia que a questão que o preocupava não era a existência do ser humano, e sim a questão do ser em seu conjunto e enquanto tal. Essa sua intenção, no entanto, só ficou clara a partir de 1930, quando publicou Da essência da verdade.
Heidegger criticou aquilo que considerava uma confusão entre ente e ser, ocorrida ao longo da história da filosofia. Para ele, o ente é a existência, a manifestação dos modos de ser. O ser é essência aquilo que fundamenta e ilumina a existência ou os modos de ser. A partir dessa diferenciação é possível estabelecer duas fases da filosofia heideggeriana. A primeira caracteriza-se pela busca do conhecimento do ser por meio da análise do ente humano, da existência humana. Na segunda, o ente sai do primeiro plano e o próprio ser torna-se a chave para a compreensão da existência.

Despertar pela angústia
Um dos objetivos básicos de sua obra “Ser e tempo” é investigar o sentido do ser. Para efetuar tal tarefa, Heidegger começou pela análise do ser que nós próprios somos. Criando uma terminologia própria, e por vezes obscura, denominou o modo de ser do ser humano, nossa existência, com a palavra Dasein, cujo sentido é ser-aí, estar-aí.
Analisando a vida humana, o filósofo descreveu três etapas que marcam a existência e que, para a maioria dos indivíduos, culminam em uma existência inautêntica:
•        fato da existência - o ser humano é "lançado” ao mundo, sem saber por quê. Ao despertar para a consciência da vida, já está aí, sem ter pedido para nascer;
•        desenvolvimento da existência - o ser humano estabelece relações com o mundo (ambiente natural e social historicamente situado). Para existir, projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move uma busca permanente para realizar aquilo que ainda não é. Em outras palavras, existir é construir um projeto;
•        destruição do eu. - tentando realizar seu projeto, o ser humano sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. Trata-se do confronto do eu com os outros, confronto no qual o indivíduo comum é, geralmente, derrotado. O seu eu é destruído, arruinado, dissolve-se na banalidade do cotidiano, nas preocupações da massa humana. Em vez de se tornar si-mesmo, torna-se o que os outros são; assim, o eu é absorvido no com-o-outro e para-o-outro.
O sentimento profundo que faz o ser humano despertar da existência inautêntica é a angústia, pois ela revela o quanto nos dissolvemos em atitudes impessoais, o quanto somos absorvidos pela banalidade do cotidiano, o quanto anulamos nosso eu para inseri-la, alienadamente, no mundo do outro.
O mundo surge diante do homem, aniquilando todas as coisas particulares que o rodeiam e, portanto, apontando para o nada. O homem sente-se, assim, como um ser-para-a-morte.
A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão profunda, isto é, o ser, e retornar ao cotidiano; ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.
Aqui surge um dos temas-chave de Heidegger: o homem pode transcender, o que significa dizer que o homem está capacitado a atribuir um sentido ao ser (CHAUI, em HEIDEGGER, Conferências e escritos filosóficos, p. 10).

A angústia e o nada
"A angústia é o caráter típico e próprio da vida. A vida é angustiosa. E por que é angustiosa a vida? A angústia da vida tem duas facetas. De um lado, é necessidade de viver, é afã de viver, é anseio de ser, de continuar sendo, para que o futuro seja presente. Mas, de outro lado, esse anseio de ser leva dentro o temor de não ser, o temor de deixar de ser, o temor do nada. Por isso, a vida é, de um lado, anseio de ser e, de outro lado, temor do nada. Essa é a angústia. Pois o nada amedronta o homem." (García MORENTE, Fundamentos de filosofia, p.311).

BIBLIOGRAFIA: (COTRIM, G. Fundamentos de filosofia. São Paulo: Saraiva, 2010).


[1] COTRIM, 2010, pp.274-275

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